Rugby de Calcinha

Ymborés Rugby feminino como tudo começou

Como iniciar um time de rugby feminino quando as pessoas não sabem o que é, e o time masculino ainda estava em seu início? Saiba como tudo começou.
Bom, acompanhei o Ymborés desde o início e me apaixonei, não pude evitar.
Estava grávida de meu segundo filho no quinto mês de gestação, quando o meu vizinho, Jonatas Verde, retorna de São Paulo e traz consigo as leis do rugby e convida os amigos da Igreja para conhecer o esporte que ele conheceu na Faculdade.
Entre esses amigos estava meu sobrinho, André Filipe, que convidou meu esposo Gabriel para participar da brincadeira. Gabriel conheceu o rugby e voltou admirado.
Nos primeiros instantes eu odiei o Rugby. Também, meu esposo viajava a semana toda e justo no fim de semana em vez de passar o tempo comigo, ele foi conhecer o esporte. E para não ficar longe dele, resolvi acompanha-lo, e começamos a pesquisar sobre o esporte e fui me apaixonando.
Até essa altura, fazíamos parte de uma torcida organizada de futebol e sempre estávamos no estádio. Mas, quando conheci o rugby e seus valores, estar no estádio em jogo de futebol, ouvir e ver a torcida e jogadores faltando ao respeito com os outros, e principalmente com o árbitro, eu comecei a pensar se era naquele ambiente que eu queria levar meus filhos e deixar que eles achassem “normal” xingar, falar palavrões e faltar ao respeito com o próximo. Então decidi não voltar mais.
Meu filho nasceu e em maio de 2013, com autorização do médico, comecei a frequentar os treinos dos meninos.
Acompanhei os meninos em seu primeiro jogo, até então eu mal os conhecia, não sabia o nome de praticamente nenhum. Mas, quando eu vi os meninos jogando, gritei, incentivei, aplaudi!
E um momento que ficará marcado para sempre, foi durante o primeiro jogo do time masculino que aconteceu em Camaçari. O time adversário tinha mais de seis anos e o Ymborés poucos meses de treino. No meio da partida vejo um jogador bem maior que Bruno Oliveira, indo para cima dele, eu não resistir e quase invadir o campo só para incentivar e começo a gritar: “Derruba Bruno, derrubaa!!
Então, Brunão me olhou e foi com tudo para cima tackleando o cara, ao levantar fica pasmo com o feito. Foi neste instante que a paixão tomou conta de mim, me arrepiei com a cena, vibrei, chorei.
Vi que no rugby todos podem jogar, e qualquer um pode fazer o impossível.
No retorno desta viagem, chamei várias meninas, pedi para os meninos falarem com as amigas, mas pelo fato do esporte ter contato e algumas pessoas terem preconceito, eu fui a única a treinar com os meninos durante um bom tempo.
Poucos aceitavam que eu estivesse ali. Mas, com o apoio de Gabriel, segui em frente e continuei treinando e buscando outras meninas para conhecer o rugby.
A princípio, eu treinava mais passe e físico, e não tinha feito nenhum treino de tackle, apenas observava como se fazia. Aos poucos eu comecei a participar do treino inteiro, e um dia o Treinador Tápia me chama para participar da roda de tackle com mais uns 20 meninos.
Fiquei com receio, mas fui. Os meninos tinham medo de me machucar, então os tackles eram bem menos intensos. Eu não queria tacklear ninguém, pelo fato de nunca ter treinado, fiquei com medo de machucar alguém. Brincadeira, meu medo mesmo era não conseguir tirar ninguém do lugar. Eu fiquei com vergonha. Mas, um novato, o Adriano, virou para mim e disse para eu ir tentar. Aí todos eles começaram a incentivar e o coach disse que enquanto eu não fizesse, não sairíamos dali.
Criei coragem e comecei a sessão de tackles. Cada vez que eu derrubava um, eles vibravam e isso foi me dando forças para tacklear um por um, apesar de estar exausta, com os braços ralados, sem fôlego, eu fui até o fim. Fiquei surpresa comigo e com a atitude dos meninos.
Foi a partir deste dia que eles começaram a me apoiar, mesmo acreditando que o time feminino não aconteceria, e se acontecesse, seria depois de muito tempo.
Algumas apareceram, fizeram um, dois treinos, sumiram, outras foram só olhar, acharam que não fazia o “tipo” delas e eu voltei à estaca zero, ou melhor, um – afinal eu estava lá.
Em setembro de 2013, os meninos trouxeram uma menina, Késsia, que frequentava a mesma academia que eles. Ela foi até o momento, a única que veio e treinou firme durante alguns meses comigo.
Um dos meninos, o Daniel, trouxe uma colega de trabalho, a Camila Cunha que junto comigo batalhou para o time crescer e ter mais adeptas.
Postamos nas redes sociais e as meninas começaram a aparecer, dentre elas estavam Tamyres, Lídia e Ana Cristina que acabaram ficando.
Os meses foram passando e já treinávamos há oito meses quando a Danni Lopes apareceu. Nesse dia, metade das meninas não pode ir e tivemos o treino com apenas três meninas. Toda marrenta e com palavras demais na boca, ela saia do trabalho (garçonete em festas), mal chegava a casa, só trocava de roupa e ia para o treino. A Danni se apaixonou pelo esporte, começou a mudar seu comportamento marrento, diminuiu os palavrões, começou a estudar mais sobre o rugby e mesmo quando os treinos passaram de 8:00 horas para 6:00 horas da manhã, ela não deixou de ir, se esforçava ainda mais, tornando-se inspiração para várias pessoas.
Pensamos em desistir muitas vezes, mas o amor pelo esporte era e é maior que qualquer obstáculo. Em setembro de 2014, Marília e Gabriela apareceram no treino, e na semana seguinte, vieram, Phaloma, Kamilla, Emille, Emanuele, Néia, Lorena, Ana, Bárbara.
Quando vi aquelas meninas no meio do campo aguardando o início do treino, eu não acreditei. Fiquei muito emocionada, e o treino foi maravilhoso.
As meninas ficaram exaustas, surpresas com muitas coisas, porém maravilhadas e com vontade de retornarem na semana seguinte. Poucas não voltaram, mas indicaram o esporte para outras e chegaram Isadora, Gil, Mariana, Carol, Fernanda e aí o time foi formado.
Em dezembro de 2014, com menos de três meses de treino, fomos convidadas para participar de nosso primeiro torneio, a Taça Maria Quitéria, na qual fomos campeãs com um placar de 38 x 00 Orixás.
Desde então, o time vem se fortalecendo, novatas chegam e vão, algumas participam de treinos, mas não pretendem competir.
Aos poucos estamos mostrando às pessoas que o Rugby é lugar de mulher sim, que somos capazes de jogar rugby, de sermos disciplinadas, de sermos mulheres apesar de praticar esse esporte de contato”.

Texto: Clare Couto, Capitã do Ymborés Rugby Feminino