Rugby de Calcinha

Fábulas do rugby: “Os meninos e o ovo!”

 

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As histórias do porque raios jogamos com uma bola oval são muitas. E gosto muito desta fábula escrita por meu técnico e amigo Lalo Lagarrigue, grande jogador do Tucuman Lawn Tennis Clube. Pra quem não sabe foi ele que trouxe o rugby para o Paraná (é um dos fundadores do Curitiba Rugby Clube), e grandes rugbiers de várias partes do Brasil, da velha e da nova guarda já tiveram o prazer de ouvir histórias maravilhosas e aprender com este generoso rugbier.

É ele também o principal responsável pelo time feminino de Curitiba Rugby existir até hoje pois acreditou e  nunca desistiu da gente. Pensei em fazer uma homenagem pra ele postando este texto, mas quando lerem verão que os homenageados somos nós.

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Por Eduardo Lagarrigue (Lalo)

      Os Meninos e o Ovo

 Era uma vez, há muito tempo atrás, um pássaro mágico que voava pelo mundo em busca de um lugar para por seu ovo.

       Depois de muito voar, já cansado, chegou a um reino muito bonito e próspero onde as pessoas andavam ocupadas. Indo e vindo com seus afazeres. Pensou que ali seria um bom lugar e pousou aos pés do grande Ipê à entrada da cidade.  Logo as pessoas foram atraídas por um canto de tanta beleza que deixaram tudo o que faziam para ver qual era o pássaro que assim cantava.

       Ficaram assombradas quando encontraram a ave, linda e desconhecida, ao lado de um ovo muito brilhante e perfeitamente oval.

O pássaro disse-lhes que iria confiar-lhes a guarda do ovo, e que se ele fosse cuidado e tratado com carinho, daquele ovo nasceriam virtudes que seriam as fontes de infinitas riquezas.  

      O povo organizou-se, cada qual resolvido a ver surgirem às virtudes prometidas.

      Enfim, depois de alguma espera, nasceu a Lealdade e de imediato um aldeão pediu-a para si, foi-se com ela e todos souberam que daquele dia em diante, até o dia da sua morte, o aldeão foi o súdito mais leal do rei.

      Quando nasceu a Coragem o general a pediu para si, e foi, até o dia da sua morte, o homem mais valente que exército algum jamais teve.

      Quando nasceu a Honestidade, o rei, como bom político, ficou com ela e, até o dia da sua morte, para assombro de todos, se transformou no governante mais honesto que povo algum jamais teve.

      Assim também aconteceu com a Solidariedade que a confraria de tecelões tomou para si e, tal como aconteceu com os demais, até o fim de seus dias teceram as mais lindas tramas e seus tapetes foram os mais valiosos do reino.

      Quando nasceu o Caráter, o advogado da aldeia, como tivesse sido o único a não ter ficado com nenhuma das virtudes, pegou-a para si, e dele, basta-nos dizer que morreu na falência.

      Muitos e muitos anos depois, o pássaro mágico, voando sobre aquele reino, resolveu pousar para ver como iam as coisas com seu ovo das virtudes e ficou decepcionado ao ver que nada mais existia. Nem as virtudes e nem o ovo, pois cada um dos que se haviam apropriado de cada uma das virtudes já havia morrido e os seus descendentes, que não conheciam a dádiva do ovo, não sabiam que dele deveriam cuidar e tratá-lo com virtudes, e o ovo, assim abandonado acabou desaparecendo.

      A ave, então, voou novamente para bem longe dali, em busca de lugar apropriado onde poria outro ovo. Muito tempo depois, viu um gramado muito verde onde crianças brincavam. Cansada de tanto voar, pensou que  aquele era um bom lugar e pousou.

      As crianças vieram correndo quando ouviram um canto de grande beleza e ficaram assombradas ao encontrarem a ave linda e desconhecida  ao lado do ovo perfeitamente oval.

      O pássaro disse-lhes que iria confiar-lhes a guarda do ovo, e que se ele fosse cuidado e tratado com carinho, daquele ovo nasceriam virtudes que seriam as fontes de infinitas riquezas.

      As crianças, para cuidar e tratar com carinho do ovo, decidiram que ele pertenceria a todos. Brincavam com ele até cansarem-se ao final de cada dia, quando o deixavam guardado no ninho feito pelo pássaro, pois nenhum tinha o direito de levá-lo só para si.

      Assim também fizeram, quando foram nascendo cada uma das virtudes. Brincavam com elas, todos juntos, o dia todo, e depois cansados, ao final do dia, devolviam-nas para o ovo.  

      Desta maneira, o ovo nutrido pelas virtudes que eram compartilhadas por todos, tornou-se eterno e chegou até nossos dias.

     Nossa história poderia acabar aqui, mas é bom saber que aquelas crianças cresceram. Seus filhos e filhas, assim como muitas outras crianças, brincam também naquele mesmo campo verde que, nós nos esquecemos de dizer, mas se chama Rúgby e esse ciclo de brincadeiras se repete para nunca acabar.   

      É por isso, que ao vermos velhos jogadores, que já não participam do jogo, cuidando e tratando dele, devemos compreender que não estão fazendo nada além de devolver toda a dádiva recebida.  

      E para vocês que agora conhecem esta história, e sabem o que significa, lembrem-se de que quando alguém que ainda não a conhece, perguntar com o que estão jogando, se é com uma bola ou um ovo, basta apenas responder que, certamente é com um ovo. 

 

 

                          Lalo Lagarrigue

                          Curitiba, 13 de dezembro de 2008.

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Obrigado Lalito por dividir conosco momentos tão preciosos. E por permitir que eu compartilhe estes momentos.

Quem tiver algum texto sobre o rugby mande pra gente, pode ser uma fábula como esta, uma história engraçada, ou até mesmo a narração de um momento histórico.

Rugby também é história, rugby também é cultura.